lavra letras

Pega da tinta e traça
letras torcidas sem pauta.
Sentindo nas frases tortas
a própria natureza-morta.

Lavrador de mãos lisas,
ignora a dureza da lida.
Não basta pegar enxada,
e garantir bela florada.

Lá vai ele outra vez!
Cego em nova tentativa.
Medita limpando a mente:
sulca, revolve, irriga, mas
terá boa semente?

Pega da tinta e risca,
risca, rasga e apaga;
amontoa palavras divergentes,
expectativas ofuscadas!

Analfabeto de sentimentos,
soletra vaga emoção.
Manda a mão para o castigo
encontre lá a solução.

Com palavras combinadas,
Coloca vírgulas e pontos.
E o retrato caricato surge,
De figura ensimesmada.

Elementos

Água

Comporta-se como gente. Pode ser pura e agradável ou multidão descontente.

Ar

                   Água imaterial. Espírito deste mundo.

Fogo

                  Impõe logo o receio. Em ideias ou ao vivo, consome tudo em desenfreio.

Terra

                 Com cores diferentes, gera ideias distintas usando os mesmos componentes.

Premonição

Então, acordastes em pleno sonho. 

Os membros rijos, paralisados.  

Seus traços imóveis 

Repousam sobre nova realidade. 

Agora, assustastes no limiar de mundos. 

Nestes mundos de reflexos transitórios.  

Repetidamente criastes ilusões de movimentos. 

E caminhastes sobre escada de degrau único. 

Distanciastes a cada alternar de luzes e sombras. 

Enquanto, aos poucos, abraçastes irremediavelmente o mundo; 

E nele te transformastes. 

As lisas ondas de teu lago silenciando lembranças.  

Juntos, seguiremos na mesma direção. 

Não abordaremos sentidos diferentes. 

Dissolveremos todos os laços. 

Até os mais elementares. 

Eternamente. 

Tédio

Não vivo, só conecto.

Existo enquanto há bateria.

Se acabar, morro desidratado.

O real é o caos,

Assim na terra como no céu.

Deletemos!

Desinteressado e aborrecido

Sem carga, sem sinal

Adoeço, naufrago.

Em meu próprio corpo incerto,

Vegeto.

Dois do Onze

Dois do Onze

A areia das palavras polvilha
O recheio dos dias.
Torna os dentes destes dias
Rugosas armadilhas.
A areia do silêncio em diversas granulações
Suga a umidade e o prazer.
E o silêncio é nobre.
E sua insistência é dor.
Na cabeça, o relógio entupido de pensamentos
Arenosos, miragens cortantes.
E nas veias finas grãos existem:
Suas existências inconscientes as salvam.
No peito, bomba à vácuo repele areia sob pressão.
E retém poeira levantada, tóxica.
Sopros curtos, sopros longos, ausências
Obrigam o peito a se movimentar e sentir.
Processadores habilitam areias.
Os grãos se esfarelam e se reproduzem e crescem
Cheios de sonhos.
Se solidarizam, formam ONGs.
A betoneira do mundo misturando tudo
De boca aberta, aborta areia grossa.
E os dias são coleções de grãos esquecidos
Esgrouvinhados sob sol burocrático.
Dias impactantes são registrados
E mudam completamente, pelo vento, um único grão, toda a existência do mundo.
E as máquinas de areia, produtoras de areia, sonhos de areia
Alugam salas e apartamentos sob as bênçãos.
De seus múltiplos e irreconciliáveis deuses e seus tronos de areia.

Agora em paz, todos.
Todos de mesma areia acreditada variada.
Exibem, enfim, o opaco duro do vidro.
Não há palavras, não há silêncio.
Não há pulsos nem pulsões.
Não há promessas ou seu medo.
Não há nada além de um ponto final; um grão.

Final de noite, final de reunião.
Nunca saberemos os finais das conversas.
Descansam em casas vazias, em camas de areias.
Cabinas mágicas, escondem mistérios.

Sobre vazios, lágrimas de areias derramadas.