Evolução

Nasci como recheio da carne.

Morri temperando Terra.

No intervalo sonhei e,

como todo sonho, esqueci.

Tenho pensamentos absurdos.

Acredito, de fato, existir.

Peço à Deus, rogo ao Diabo.

Concedam-me, da paz, um cadinho.

Derretendo-me, serei puro

para voltar ao mundo expurgado.

Mineralizado, evoluí.

Intercalo

Não sei se vivo por estar acordado

Ou acordado por pressentir vivo

Esse embaçamento, essa dubiedade

Esta dúvida inquestionável

Ora acorda, ora dorme

Ora sonha, ora arde

Sempre horas

Oscila entre mundos intocáveis

Enquanto existo consciente em vão

Entre energias e materialidades

Duas faces da mesma ilusão.

Farelos

No meio da noite,
nossos corpos se aquecem.
Nas mãos, prazer tinto.

Seus olhos escuros,
brilham! Pensamentos sujos.
Ardil sedução.

A flor sem perfume,
apenas o quê se vê.
Exposta verdade.

Enquanto te espero,
uma infância grita ao lado.
Sou eu ou você?

Agora te vejo,
espinhas, barba, silêncio.
Crescidos ao lado.

A beleza sumiu,
a graça acabou,
ficou a carcaça
do amor que se perdeu.

Os dias se copiam;
vazios, cheios de sol.
Noites de muitas luas
sempre novas.

Advertência

Há males que vêm também
para o mal dos crédulos;
corações entregues.  
Vitelas que os cães alimentam sem pudor.

Cuidado! Deus, de incomensurável sabedoria, não deu asas às cobras.  Se desse, tiraria o veneno; para Sua inescrutável alegria.

 Cuidado!
 Seu é coração humano e corre perigo? Não permita que a Névoa cegue e o Caçador vença.

Distância

                         

      Entre meus olhos e os seus,
      uma tela divide ou une?
      Nossas celas.
      Palavras armadas sequestram
      lembranças,
      expostas a olhares alheios.
      Relembro boa infância
      através de meus devaneios.
      De quem são esses olhos que,
      agora, acreditam com sorriso

Desnudar um espelho alheio?

Tormenta

Essa Natureza inconsequente
          bela obra realizou.
          Em tecido fino delicado
          seu melhor programa executou.

Matéria bem escolhida.

Em vício de simetria
          verte essência vencida
          desequilibra o humor e a sintonia
          alberga demônios em alegria.

Cerne de obra perdida.

Os olhos variam o brilho
          de futuro confiante e profundo
          à visão rasa do fosco fundo.
          Luz e escuro a um piscar.

Alucinação.

Da boca ambígua a voz vaza plana
          contendo a custo mistos rancores.
          Sedução convalescente adocicada
          esconde motivos enganadores.

Os olhos, de viés, espreitam.

No corpo belo bem recortado
          formato que encerra água ardente,
          os momentos são moídos finos
          calçando as vielas dos pensamentos.


          O mundo se liquefaz.

Passado e futuro a um só tempo
         no girar sob pressão
         alegria e horror num só viver.
         Presente sem motivo e sem prazer.

 Olho do furacão se arregala.

Delírio

Sua pedra é a mentira.

Sua mira é vesga.

Sua mágoa é eterna.

Sua paz é mortal.

Sua pedra não tem mira.

Sua mira é uma pedra.

Sua mágoa não é mentira.

Sua paz não tem paz.

Sua pedra é só mágoa.

Sua mira é mentira.

Sua mágoa não é vesga.

Sua paz é de pedra.

Sua pedra é mortal.

Sua mira é a paz.

Sua mágoa é de pedra.

Sua paz é de mentira.

Vesga é sua vida.

lavra letras

Pega da tinta e traça
letras torcidas sem pauta.
Sentindo nas frases tortas
a própria natureza-morta.

Lavrador de mãos lisas,
ignora a dureza da lida.
Não basta pegar da enxada,
e garantir bela florada.

Lá vai ele outra vez!
Cego em nova tentativa.
Medita limpando a mente:
sulca, revolve, irriga, mas
terá boa semente?

Pega da tinta e risca,
risca, rasga e apaga;
amontoa palavras divergentes,
expectativas ofuscadas!

Analfabeto de sentimentos,
soletra vaga emoção.
Manda a mão para o castigo
encontre lá a solução.

Com palavras combinadas,
Coloca vírgulas e pontos.
E o retrato caricato surge,
Da figura ensimesmada.

Humor Mau

E, no entanto, aos porcos
deu Deus humor de morte:
um rabicho retorcido,
um corpinho mal esculpido,
um focinho divertido,
uns pezinhos pequeninos, uns olhinhos humaninhos, um espírito sem sorte;
ser hospedeiro Canino e o bacon. Ah! O bacon!!!