Advertência

Há males que vêm também
para o mal dos crédulos;
corações entregues.  
Vitelas que os cães alimentam sem pudor.

Cuidado! Deus, de incomensurável sabedoria, não deu asas às cobras.  Se desse, tiraria o veneno; para Sua inescrutável alegria.

 Cuidado!
 Seu é coração humano e corre perigo? Não permita que a Névoa cegue e o Caçador vença.

Distância

                         

      Entre meus olhos e os seus,
      uma tela divide ou une?
      Nossas celas.
      Palavras armadas sequestram
      lembranças,
      expostas a olhares alheios.
      Relembro boa infância
      através de meus devaneios.
      De quem são esses olhos que,
      agora, acreditam com sorriso escondido,
      desnudar um espelho alheio?

Tormenta

Essa Natureza inconsequente
          bela obra realizou.
          Em tecido fino delicado
          seu melhor programa executou.

Matéria bem escolhida.

Em vício de simetria
          verte essência vencida
          desequilibra o humor e a sintonia
          alberga demônios em alegria.

Cerne de obra perdida.

Os olhos variam o brilho
          de futuro confiante e profundo
          à visão rasa do fosco fundo.
          Luz e escuro a um piscar.

Alucinação.

Da boca ambígua a voz vaza plana
          contendo a custo mistos rancores.
          Sedução convalescente adocicada
          esconde motivos enganadores.

Os olhos, de viés, espreitam.

No corpo belo bem recortado
          formato que encerra água ardente,
          os momentos são moídos finos
          calçando as vielas dos pensamentos.


          O mundo se liquefaz.

Passado e futuro a um só tempo
         no girar sob pressão
         alegria e horror num só viver.
         Presente sem motivo e sem prazer.

 Olho do furacão se arregala.

Delírio

Sua pedra é a mentira.

Sua mira é vesga.

Sua mágoa é eterna.

Sua paz é mortal.

Sua pedra não tem mira.

Sua mira é uma pedra.

Sua mágoa não é mentira.

Sua paz não tem paz.

Sua pedra é só mágoa.

Sua mira é mentira.

Sua mágoa não é vesga.

Sua paz é de pedra.

Sua pedra é mortal.

Sua mira é a paz.

Sua mágoa é de pedra.

Sua paz é de mentira.

Vesga é sua vida.

lavra letras

Pega da tinta e traça
letras torcidas sem pauta.
Sentindo nas frases tortas
a própria natureza-morta.

Lavrador de mãos lisas,
ignora a dureza da lida.
Não basta pegar da enxada,
e garantir bela florada.

Lá vai ele outra vez!
Cego em nova tentativa.
Medita limpando a mente:
sulca, revolve, irriga, mas
terá boa semente?

Pega da tinta e risca,
risca, rasga e apaga;
amontoa palavras divergentes,
expectativas ofuscadas!

Analfabeto de sentimentos,
soletra vaga emoção.
Manda a mão para o castigo
encontre lá a solução.

Com palavras combinadas,
Coloca vírgulas e pontos.
E o retrato caricato surge,
De figura ensimesmada.

Humor Mau

E, no entanto, aos porcos
deu deus humor de morte:
um rabicho retorcido,
um corpinho mal esculpido,
um focinho divertido,
uns pezinhos pequeninos, uns olhinhos humaninhos, um espírito sem sorte;
um parentesco Canino e, o bacon. Ah! O bacon!!!

Elementos

Água

Comporta-se como gente. Pode ser pura e agradável ou multidão descontente.

Ar

                   Água imaterial. Espírito deste mundo.

Fogo

                  Impõe logo o receio. Em ideias ou ao vivo, consome tudo em desenfreio.

Terra

                 Com cores diferentes, gera ideias distintas usando os mesmos componentes.

Premonição

Então, acordastes em pleno sonho. 

Os membros rijos, paralisados.  

Seus traços imóveis 

Repousam sobre nova realidade. 

Agora, assustastes no limiar de mundos. 

Nestes mundos de reflexos transitórios.  

Repetidamente criastes ilusões de movimentos. 

E caminhastes sobre escada de degrau único. 

Distanciastes a cada alternar de luzes e sombras. 

Enquanto, aos poucos, abraçastes irremediavelmente o mundo; 

E nele te transformastes. 

As lisas ondas de teu lago silenciando lembranças.  

Juntos, seguiremos na mesma direção. 

Não abordaremos sentidos diferentes. 

Dissolveremos todos os laços. 

Até os mais elementares. 

Eternamente. 

Uma canção infeliz

Nas espumas das ondas,

brinca convalescente.

No colar perdido recupera

memória…memória…

recente?

Deixa tudo para trás.

Procura…procura… um colar?

Mergulha nas ondas rasas que acredita ser

o mar.

Colar não encontrado.

E, preocupar?

Lembrança da lembrança…

Lembrança?

A memória faiscou.

Sombras floresceram

adornando cantiga antiga.

Brincam as espumas como se alto-mar.

Mar duro.

Contra doçura.

Ingênua espuma insinua:

“Lá, lá, lá, lá, lá, lá…”

Solfeja, angelical, como brisa.

“Nunca mais há de se lembrar…

E o mar…”

O mar atravessou

( tem certeza de que a tudo ouviu)

” mandei um tubarão pra suas pernas arrancar”.

E a brisa seca ri,

Indiferente.